breve-brevíssimo ou aquele morre-não-morre
Na iminência do incêndio, o inominável já está à espreita. Uma precisão de dar vida a um que toca, machuca. E lá vai o demônio... embaixo da mesa, na ponta dos dedos, pelas costas, beiço colado ao ouvido esquerdo. De mãos dadas com o diabo, vou ao caminho de Deus.
Re-bento. Antes de Maria cerzir as próprias fissuras, o batismo é consumado – a obra já nasce benzida pelo coxo. Fruto de vosso ventre maldito e da maldade de escrever.
Ficamos assim: Deus é o significado, o diabo, o significante.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Des-honra.
A Patricia Misson
Ah, o movimento interior, o estardalhaço intrínseco a que entro em contato ao te permitir todas as noites.Algo que não retenho nem compreendo, leiga e alheia que sou, me acorda na cadência das horas negras. Me sopra barbaridades no ouvido direito. Vem bulir de madrugada. É um espírito ruim e coxo, que debocha do meu pudor, da minha higiene íntima, das pregas intactas do meu cu.
Sou mosaico de retalhos, costuras, fissuras, arrombamentos. Acendendo duas velas, uma pra deus e a outra, irmanando-me com a primeira puta espancada desta madrugada, humilhada, corpo estilhaçado estendido no colchão úmido, boceta arrebentada pelo gargalo da garrafa de cerveja.
Principia num gelo apavorado que desce deslizando pelo dorso e pára no acento agudo e convexo da cervical, pedra fria que frita no lombo em chamas e depois chora. Um saber sem saber. Daí vem os cheiros dos fluídos todos mais o suor, o sebo da nuca e dos fios de cabelo pousados nos lábios. Um cio que rasga a noite da cidade. E então concebo presença.
Miríade de olhos invisíveis: abrem-se aos estalos, paulatinamente, espocam em diferentes pontos do espaço, luzes que descortinam a oferta de deleite; então escondida pela penumbra, é agora exposta no proscênio. E ficam a cuidar e a rodear, perfazendo uma mandala diabólica de êxtase. Vigiado, imóvel, um corpo vulnerável se revela na ribalta, ao sabor dos desejos da audiência sedenta, e, depois, alvo de vozes e toques, é objeto de um rito de cânticos momescos, um assédio suprasensorial.
Ergo-me em sobressalto e é tudo mansidão de repente, coexistindo apenas respiração e desvario. Urro com tudo do de dentro, insensata, tomada, arranhando a garganta porosa. E o olhar que me diz em silêncio, mesmo sem querer ser mensagem, quando contempla - porque eu sei que me vê -, é de uma eloqüência muda.
Em suspenso mantenho a noite. A vida toda por um momento de lucidez, de embriaguez; estar de fato imersa no Sentido. A poesia desse desespero, das lágrimas que me correm, fervilhosas, incandescentes e tudo num arrebatamento que experencio consciente, luminosa e, enfim, comovida com esse deus que me invade de todo, por dentro de mim. E avança, demoníaco. E o meu dentro é agora de oração, de prece comungada com um falo há muito excomungado, que me ocupa as dimensões todas, os orifícios – vermelhuscos, gelatinosos, imensas dilatações oceânicas que abrigam esse Senhor que me detém e rende.
O diabo me rodeia. Meto-me à escrita, à procura de um Deus. Não sei o que fazer com essa mácula. As palavras começam a me despetalar
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
A Patricia Misson
E dizem que ela ia balançando a sainha que subia e descia nas coxas azeitadas. Umas pernas que sambavam, meu Deus. Um passo mais assim e já mostrava as dobras, os culotes caprichados, os sulcos e todas essas coisas que as mulheres de verdade têm. As têmporas molhadas, os fios negros umedecidos pelo suor dos movimentos de há pouco. Amorenada, de beiços e tudo, e uns olhos de. E dizem que ia. No rebolado do andar, ainda guardava no corpo encharcado de rum o ritmo diabólico da dança, tinha quê de santeria. A pele trazia o fartum dos charutos que pendiam das bocas dos senhores rotundos. Na memória, as melodias todas e a orgia dos corpos no salão – mosaico de balés infernais.
E dizem que vinha da casa de show mais suja e famigerada da Velha Havana, cortando o silêncio sonolento daquelas alamedas, acordando espíritos e entidades. Despertava a recente manhã daquelas ruas antigas, povoadas de bares e mulheres envelhecidas que contavam as histórias dos tempos outros, coloniais – relatos enfeitiçados pelo tempo.
Em cadência sincopada, tomou a rua do Obispo, onde os deuses do comércio ainda não ardiam, febris. Chegando ao porto, de onde antigamente se partia e vinha da Europa, sentiu. Num simplesmente, sentiu-se. Percebeu-se e descobriu que era.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Exílio
Rebuliço. Dezenas de cadeiras se arrastam, cadernos se agitam. Meninas enrolam os cabelos úmidos em coques desiguais, meninos os desfazem. Risinhos. Depois, gargalhadas. Bochechas febris. Suor nas têmporas. Ofegantes, os pupilos suspiram, egressos da quadra. Agora na sala, os bocejos se avizinham - perspectiva: avalanche de horas chatas.
O lufa-lufa é laconicamente interrompido pelo som metálico, cada vez mais próximo, dos saltos de Tia Wanda. Não havia dúvida: aqueles tlec-tlec sempre puderam ser identificados há anos-luz. Tlec. Tlec. Tlec. Tlec. À medida que o barulho algoz se intensificava, o silêncio também aumentava. Tlec, tlec, tlec, tlec. Naquele momento, apenas um som existia. Tlec, tlec, tlec, tlec. Ela vinha. Tlec, tlec. Na porta, um início de sombra. Tlec. Tlec.
Ei-la.
1,50m de altura, inflacionados pelo sapato alto, vestiam saias longas e puídas. Os óculos e a gengiva se destacavam. Havia ainda a ausência de um dente lateral, percebida apenas nos dias de sol. Eu tinha certeza: Tia Wanda era um desenho animado.
A professora rapidamente distribuiu figuras somente com contorno, sem qualquer cor ou preenchimento. Eram animais, flores, planetas. Todos pálidos pelo branco do papel. "Mãos à obra!". Giz de cera, tinta, pincel.
Mas, decepção, a minha figura era só um menino. Nada desses bichos que povoam os mares ou as florestas, nem mesmo plantas carnívoras e gulosas, ou ainda objetos espaciais. Era só um menino, desses que eu via todos os dias e que eram inconvenientes e cheiravam mal. Torci o nariz. Passada a frustração, atirei-me à empreitada.
Ao cabo de 20 minutos, obra de arte se via. Um garoto pintado de marrom-terra com cabelos verde-alface caracterizava meu desenho. Expunha-o em cima da mesa, esperando pelo sinal de entrega. Só que Aldo, o menino da carteira ao lado, observava aquela mancha marrom-verde com ponta de riso nos lábios. Não se contendo, comunicou a vizinhança. Logo, um grupo já ria efusivamente e sussurrava comentários aparentemente muito engraçados. Olhava eu o meu menino-borrão e me afeiçoava ainda mais a ele. Vontade de beijá-lo. E se ele tivesse gosto, cheiro, fosse macio? E se saísse do papel e me envolvesse em abraço? Qual seria o tom de sua voz, o contorno de seu sorriso? Num lance, pousei minha cabeça sobre o papel e lá fiquei. E, me parece, a aula acabou.
domingo, 28 de janeiro de 2007
A intervenção da vez invadiu um vagão da linha 1 azul de metrô e vinha pela voz murcha e inerte da mulher maltrapilha que segurava uma criança no colo, na cadência típica dos pedintes já gastos das locomoções públicas, nos versos vomitados em toada única. Se gastos estão, gastos também são os ouvidos dos usuários escaldados de tantos dias seguidos de tantos dias seguidos de tantos dias que, de tantos, não passam de quaisquer, mais uns, mais uns momentos, iguais, de igual existência precária, corpo e alma fatigados - punhados de cenas que se repetem. E eles que, na luta por um espaço entre abarrotados vagões de períodos-de-pico, na briga pela sobrevivência até o fim do trajeto, que sonha pela conquista do bate-cartão, eles.
E ela ia cantarolando ladainha, a mulher-esfarrapo: os olhos fundos, foscos, famintos; a pele manchada, ressequida, de um preto cinzento. Com a criança pequenina, que quase some nas mãos dela, compõe personagem de Portinari. Cândida, a voz passeia lenta, longa, lenga, lenga, lenga. Serpenteia pelo vagão, vai, volta; reverbera nos nossos ouvidos; caminha entre os assentos e os usuários; invade conversas, monólogos, solilóquios, diálogos interiores; remete a momentos; revolve lembranças, emoções, causando... interferência. Vozes que convergem, se imiscuem. Ruído.
- Pááára cu'issu.
Vozes sobrepostas, ritmos dissonantes.
- Eu ti conheço, cê fala todo dia a mesma coisa.
Vozes que conflitam, buscam espaço comum entre os espectadores.
- Essi filhu nem devi sê-sêu.
A um metro de distância, o homem-fantasma. Empoleirado nos apoios do vagão, metralha a cantoria alheia. Aos resmungos, enfraquece discurso da mendicância. Estações que passam, se alteram, outras...
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
Reminiscências...
- Que quer dizer dedo do meio?
- Manda tomar no cu.
O espelho refletia curiosa pintura: com tronco envergado, pernas erguidas e arcadas, uma pré-adolescente examina sua rosa íntima, com labirintos e sulcos desabrochados, calcando sua análise no reflexo que obtinha da imagem. Dedilhava-se. A pele flácida e viscosa se avermelhava a cada toque mais veemente, a cada riscar de unha, a cada investida mais profunda. Os dedos, já umedecidos de substância pegajosa, não se cansavam. Ocupada que estava em sua empreitada, não percebia que eu a observava, entediada.
Sempre que ia em casa, Clô ritualizava sua visita, antes das brincadeiras de bonecas e das imitações de cenas noveleiras de casais, dirigindo-se até o quarto de mamãe pra se olhar. Dizia que era de precisão esse hábito. (As mulheres de sua família viviam sob a sina de uma doença vaginal hereditária, e ela deveria freqüentemente se tocar a seco para verificar qualquer mudança no local.) Dizia também que na própria residência não poderia fazer o exame, já que não gozava de privacidade por lá e que só se sentia à vontade na minha presença.
Um dia, pediu favor. Aproximei-me (sempre mantinha certa distância, com medo de molestá-la). Clô explicou-me que não poderia mais prosseguir sozinha em sua prática. Que, como nunca surpreendia qualquer alteração, deveriam ter seus dedos se acostumado àquela textura. Agora, ela precisava de outro meio para o toque. Solicitou ajuda. Explanou rapidamente acerca dos novos procedimentos que o exame necessitava, orientando-me na maneira pela qual eu deveria movimentar minha língua na região. Dessa forma, a partir de então, que nova pintura o espelho passou a refletir.
Já criança, Menininha tinha lá suas obsessões. Tinha desejo de Deus. E como se excitava no ambiente sagrado! À época do Catecismo, deveria ir religiosamente à Igreja, todos os domingos. Quando faltava - por melancolia, preguiça, sono ou cólica –, flagelava-se com pensamentos de expurgação. Como ser perdoada? Nesses casos, passava a semana inteira como uma santa. Era afável e justa com os demais, tinha bons olhos para todos, compreendia atitudes questionáveis, isolava-se no silêncio, privava-se de companhias e excessos. (Que tudo passasse depois.) Só não podia, absolutamente, resistir ao quarto escuro. Lá, sozinha e acompanhada de demônios, fazia o diabo consigo mesma.
A despeito de que, nas semanas normais, em que não faltava com a palavra e com a freqüência, a vida seguia bem menina. Menininha, menina que era, vivia a se envaidecer, a se ajeitar, a se colorir e descolorir. Rezava ao pé da cama, escondia-se no cobertor, tomava café com torradas, sorria, pensava em bicho-papão e na professora. E, quando do domingo, experimentava ápice.
Antes de adentar solo divino, deixava-se surpreender pela imponência arquitetônica. Fazia o sinal da via crucis e ia. E como. Na eminência de se acomodar em um dos balcões, já vivenciava as alterações de seu corpo. Umedecia-se toda. Os sons, o eco, o cheiro eram os primeiros a incomodá-la. Depois, as Imagens. As Imagens. E Menininha seguia as horas matinais domingueiras. Esforçava-se para manter os lábios em movimento a fim de que se simulasse oração; mantinha feição séria com intuito de denunciar devoção. A Missa seguia lá fora. Lá dentro, labaredas. Um fogo que ardia – imagens e fantasias. Uma quentura entre as pernas. Era Deus?
domingo, 7 de maio de 2006
"Recomendava aos iniciantes na difícil arte de escrever: 'menino, aterra esse mar e mata essas gaivotas. O resto demonstra alguma coisa apreciável. Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central de 2ª classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas páginas'."
(João Antônio, acerca do conselho de seu mestre Lima Barreto)
Ao Felipe Jordani
Diferentemente do contato rotineiro com os transportes públicos, era tudo calmaria no ponto final da linha 457 Metrô Penha-Taboão Paraíso. Brisava. Culpa do horário. Pouca gente a andar por aí, pela cidade feia, àquela hora da tarde. Da estação suja, do instante morto, da vida cinza dos meninos encardidos e das pombas pedintes. Pois que, da sujeira, da sobre-vida, do pálido daquela espera de partida do ônibus, auferia-se alguma beleza. Invenção, na certa, daqueles que se habituaram a ver poesia em tudo. Gatos pingados que éramos, pausávamos a vida ali, sentados no assento gruda-gruda, olhando o nada que eram aquelas quatro horas vespertinas. Um fio de vida escapava d’alguma respiração - notada em decorrência de um suspiro perdido -, do trec-trec de uma embalagem de salgadinho ou dum toque-susto de celular. Era assim. Olhares infinitos, perdidos n’algum pensamento vogante para além do vidro fosco, ensebado. Pensamentos suspensos que conversavam por meio da presença-ausência daqueles. Que éramos assim. Pingos de gatos.
No finalmente, homem do volante, função: motorista, juntou-se a nós; veio conviver, existir. Alcançou degraus e, num pulo, tomou seu posto, seu pequeno trono. Na eminência de iniciar reinado - já havia acionado a máquina e nós tremíamos com o motor há segundos -,foi questão de dois moleques subirem no ônibus. Maltrapilhos, carregavam caixotes-de-engraxate. De olhos amargos, eram encardidos. Aproximaram-se com passo e linguagem. Num requebrar de corpo, traziam odor e palavrões, expressão, gírias da rua, da viração de todo dia. Por pur-favor-tia-deixa-nóis-passá, o cobrador, que era cobradora, consentiu passagem e eles se dobraram, redobraram, entortaram e espremeram, e venceram a catraca esguia. E logo foram marcando presença, farejando ambiente. Enchendo recinto de cheiros e grunhidos, eram um destaque. Reluziam. Sobrepujavam presença. Traziam a vida para os passa-passageiros - natimortos -, revolviam terra de ascos, medos, raivas e sente-mentos daqueles que eram pingos despertos pelo fator hostil, pela interferência externa que abalava a apatia, a sonolência. Interna. Daqueles que eram gatos.
Éramos. Planejávamos bote. Espreitávamos. E os moleques nem aí. Eriçados, mordidos que estavam, sacolejavam para o lá e para o cá. O ônibus nem havia partido, eles já faziam vento no nosso rosto. Iam e vinham. No corredor-passarela, exibiam-se num sem-fim-fugaz de deleite efêmero-eterno - raro. Sambavam. Na brincadeira de mão, na gozação pueril e cruel que mantinham reciprocamente [O deboche dos meninos da Rua é sempre doído e triste - cousa fantástica.], no alisa-bate-ri, a coisa foi esquentando. Entardecia...
E foi que os dentinhos tortos à mostra e o reverbera das gargalhadinhas ardidas cederam às feições fechadas e aos gestos truculentos. O espetáculo, com novos matizes, tornou-se terrível, hipnotizante. Os olhares daqueles que antes fugiam, se escondiam, fingiam indiferença, foram implacavelmente arrastados para a cena apresentada - sempre os mesmos atores sociais do palco mais humilhante. Os olhares torciam, regozijavam-se - eram público do ringue armado, uma platéia eloqüentemente muda. Segundos de êxtase. Foi então que. Vítima de um soco mais contundente, um deles perde o equilíbrio e desmonta-se no chão de alumínio. Blum enorme, fundo, alto. Pancada de ressonância. Ecos. Foi o sinal, o béééé que noticiava fim de ato e hora de revanche.
O cobrador, que era cobradora, nitidamente excitada e semi-erguida de seu banquinho, pôs-se a grunhidos guturais, estridências incontroladas. Tomou rédeas. Tomou de volta favor concedido e des-mandou, anunciando sentença: fora-os-dois. Imperativo. Com ponto de exclamação. Muitos. E todos os nós que éramos aplaudíamos epílogo perfeito, aprovávamos desfecho. Éramos um bravo! em uníssono interno. Satisfação geral e frenesi. Éramos.
Quanto aos dois, não contestaram pito, lei de abaixa-a-cabeça-vagabundo se respeita. O de pé já foi saindo, descendo, batendo pé nos degraus. O caído, desmontado, levantava corpo e descia cabeça - duas vezes vencido, e tantas... Em direção à porta, dirigia-se. Seria o fim de tudo, mas. Antes, voltou-se para os nós.
Quase vimos fisionomia [não víamos mais nada]. Horror. Derrotado, carregava acessório singular: filete líquido rasgava-lhe parte da face. Não vimos. Virou-se. Deu-nos suas costas, ninguém ouviu passo, flutuou para fora do ônibus e foi ter com a Rua.
Em instantes, éramos pingos. Sem mais cheiro-cor-sabor. O veículo arrancou e a vida ficou. Lá dentro, zumbis. Nós.
sábado, 7 de janeiro de 2006
Conto imoral do silêncio e dos diálogos
Era sempre assim. Quando contrariava sua rotina caseira e caminhava de casa até a Igreja, para levar a travessa de torta de palmito que a sua mãe preparava toda semana para o padre, sempre vivia a mesma angústia. Era colocar os pés na rua de paralelepípedos grossos e desnivelados, ajeitar a redonda travessa na cintura - que já ensaiava de lhe escapar das pequenas mãos - que pressentia o porvir, mal-estar. A garota tinha esse vício desde os 7 - e, agora que já alcançava a casa dos 12, ninguém tinha mais esperança de cura. A família vigiava, alarmada; os vizinhos alertavam, fuxiqueiros. Aconteceu que, nesse dia, acordara especialmente propensa a ele. Logo de manhã, a mãe já havia reparado - "Ih! Hoje ela acordou pensa pr'aquele lado". E que lado? - alguém poderia anunciar, por falta de observância. Aquele, uai - aquele do tal do vício.
Mariana de Souza Cruz, menina de protuberâncias precoces, dotada de carnes novas e recém-volumosas, vivia a época do sacrifício da infância, do holocausto da meninice - nascedouro de vontades... E como morria de vontades! Ansiava por loucurazinhas e novidades, sempre no afã de saciar o vício. O tal. Mas conto que foi, pé-ante-pé, equilibrando-se pelas ruas de Ouro Preto, com suas pernas morenas à vista, seus dois inéditos botões de rosa pula-pulando e o dançar do caminhar - requebrado. Foi perfumar a rua com o cheiro de menina-moça; foi acenar existência. Era uma maldita e não sabia.
A luz da vida do meio-dia inundava o espírito, estimulava desejos, incitava à ação. A rua, tão clara e sonora, com seu quê urbano-vivaz, trazia beleza e riqueza. Tão contrária ao universo do eu-sozinho, do vazio escuro de ser um, um-só, um-nada. Seu mundo íntimo se mostrava tão discrepante daquela diversidade de seres, sensações, sentidos; daquela polissemia citadina que ela agregava a si, que a enfeitiçava. Aura. O quente do ar, do corpo, da energia que advinha da gente que passava por ela, ao redor dela, através dela - as pessoas a atravessavam - e que partiam deixando odor, olhar e nó na garganta. Frustração: ensejo perdido.
É: Mariana tinha gana de gente; fome de interação; ânsia de troca, de fusão de almas, de compartilhamento de vozes, dores, toques e fluídos. Sofria da dependência da comunhão com o mundo e, insaciável, queria sentir a todas, a todos, a todas as pessoas. E se ocupar espaço é uma forma de anunciar existência, andar nas ruas é uma forma de se fazer presente, de ser percebido. E percebido por quem? Pelos outros quase-existentes, pelos outros também pouco percebidos. Mas sempre pelos outros. E Mariana partia, atormentada por questões primeiras. Como gerar empatia, impacto, atenção? Como disparar mensagem com sucesso? E como prosseguir com essa troca de mensagens-estímulo, compartilhar sensações-emoção, interagir com os tais outros nesse dito espaço público?
Não titubeou: sacou flecha das costas, preparava o lançamento, escolhia alvo - início de ritual. De princípio, habituou-se a farejar campo de mira, perscrutar áreas de atuação. Mas aquela gente escapava de suas garras - multidão sorrateira, sempre atarefada, deixava a menina na triste solidão de estar no meio do aglomerado. Abandonada, partiu para o tudo-ou-todos, atirando aos montes, aos baldes, para todos os cantos, em sua busca desesperada pelo outro. Assim, tentava laçar com os olhos qualquer existência que se aproximava - devorar. Suas duas bolas de fogo, alucinadas, ansiavam pela cooptação alheia. Procurar, procurar; caçar. E, no impulso incontrolável, deu bote:
"Que horas são, seu moço?" - despejou com o coração no bate-bate. "Não tenho relógio", foi o retorno. "Eu sei, era só p'ra puxar assunto" - rasgou-se toda com a navalha da franqueza. "Seu moço" não moveu feição, considerou-a muito, decerto, com olhar sem desvio, de análise. "Sou Mariana", antecedeu-se. Outro silêncio, regido pelo tal olhar, pairou. Mariana era só súplica, com fartum de quem implora. Ao menos, não era mais apenas-uma, consolou-se em segredo. Eram dois, eram ela-ele, ali, mergulhados num estado estático, num ápice trágico-teatral, no segundo cênico que vale a vida toda. "E eu, Reinaldo", disse, finalmente, silabando as palavras, com cuidado para que não lhe escapasse o momento-fala. "Sua graça toda é Reinaldo de quê?", deu prosseguimento, de imediato. Não houve resposta. "Seu moço" prostava-se diante dela, irremediavelmente mudo. "Diz nada por ca'de quê?", interrogou, com tom de estranhamento. Ele a fitou sério. Puxou o ar pelas narinas, fez que ia responder, ganhou um segundo a mais de tempo e disparou:
"Menina, não sou de desperdiçar palavra que vá bulir com o silêncio" - epílogo.
Purificação.
Conto que, ali, eles existiram por mais uns instantes, contemplando tão singulares existências, sentindo um ao outro, cheios de verdade, corpo, cheiro, magia, angústia, prazer, paralelepípedos, vontade, hormônios, palmito, olhos, desejo, padre, energia, travessa, doença, seios, solidão, diálogo, Igreja, mãe, vida... e silêncio.
JURO: não sou Clarice
Largada
Entrou no banheiro com a meta estipulada: banhar-se. Ainda munida de vestes, pudores e ais, trancou-se na futura sauna a qual o cômodo doméstico se transformaria... se houvesse tido tempo. O fato é que virou o trinco, uma vez. Não sabia porque fazia isso, estava a sós em casa. Mas, mesmo assim, sempre cismava de fechar a porta do banheiro quando de sua utilização. Não foi diferente naquela noite. Foi diferente naquela noite.
E assim, na seqüência de ações pré-determinadas, mirou-se no espelho. Ah, o espelho. A questão do espelho merece sempre um tomo à parte. Mas tantos já o fizeram e tão bem sucedidos e... Mirou-se. Viu, como sempre, pessoa desconhecida. Encarou a prístina face. Aquela. Olhou-se muito, decerto. Costumava se observar muito. Detalhes defeituosos, mistérios que seus olhos evocavam, nuvens de elucubrações, lembranças e desejos. Ansiava o mundo pela própria face. Sorteava sonhos... Admirava-se, na verdade. Um querer afagar-se, uma vontade de si mesma. E tantas vezes e tanto tempo desprendido a se olhar que chegava a se apaixonar pelo o que era, pelo o que seria. Admirava-se, na verdade, mais pelo o que era, pelo o que era capaz de ser. E ainda não o era. Mas, ser capaz ou se saber capaz já não é uma pontinha do ser?
Depois de saltos e vôos produzidos graças às evasões estimuladas pela sua face, iniciava-se o ritual quase doloroso, quase mecânico de se despir. Peça-por-peça, pele-por-pele, pêlo-por-pêlo, lâmina-por-lâmina - cicatrizes. Já nua nos seios, cotovelos, sexo e joelhos, ainda ostentava par de meias. Gostava-se assim: ridícula e indefesa: picaresca em suas formas desajeitadas, suas massas disformes, amontoado de carne - corpo -; suscetível sem máscara ou casca, tão sujeita e à mercê de perigos e agressões... tão exposta... tão real... - comoção. Amava-se para sempre assim, amava-se para sempre naquele instante. Uma foto intrínseca, um recorte até-que-enfim verossímil.
Segundos e estava lá na gaiolinha de vidro. Certificou nu dos pés, era toda nu. Equipada de ausência e vazio, prestes a girar torneira, pressentia água. Dilúúvvvio... Traumatizando o seco do corpo, umideci'alma. Encharcou-se. Acalentava com as mãos superfícies e invadia orifícios. Em seu desbravamento inconsciente, descobria texturas, odores, sensações; era terra à vista, era expedição explorada. Mas, ameaça, logo interrompeu viagem, sinal externo. Nem notou-se esbranquiçada pela espuma, ancorou navio e foi observar ao redor. O cenário se constituía, haveria ato trágico. Constatou cheiro-queimado e parca fumaça no teto. Repousou sabonete, receio.
Não poderia classificar o que foi aquele susto, refúgio da alma. Tralma. Um relâmpago no coração. Não poderia. Não saberia precisar sucessão de sentimentos-súplica. Tampouco o desespero incoerente daquele "instante-já". Sabe que ouviu sinos de ouro tocarem. Sabe também que viu faíscas contínuas escaparem do objeto que, inicialmente, jorrando cachoeira, passou a cuspir raios. Clarão no teto, luzes tzzzz. Um curto dentro de si. Espanto. E o impulso primacial: a fuga.
Agora: selvagem.
baque certeiro-incerto de-de-desejo de sumir é o ddesespero que escorre pelos OLHOS e pelas células desse corpo MALDITO .... !! DEUS violenta mãos que puxam-que-puxam box que emperra não sai do lugar bicho acuado pânico crescente faíscas puxa mais uma vez aaaaaaaaaa ninguém vem ........ não há saída tempestade merda! sangue, dedos adrenalina do medo da dor da angústia da repuxa-empurra o vidro imóvel vai, vai, vai vontade de ir embora de vez mais-uma-vez e gesto, gesto, gesto BRUSCO!.... foi! ah
Livre, fugiu. Foi para longe. Nua aos pingos, foi deixando a água dos pés molhados registrar o caminho da liberdade. Parou de súbito e, estranho, não havia alívio: sabia que agora viria o pior. No estaticismo vegetal externo, olhar parado, expressão de choque, debruçava-se sobre o seu tumulto interno. Tomada pela confusão que flertava com raiva, vergonha, melancolia, desmontou-se no chão. De joelhos, ao feitio da oração, ainda conseguiu esboçar gemido pungente, e entregou-se à prece epifânica. Pranto geral.
Arquivos
Outubro 2004
Novembro 2004
Dezembro 2004
Fevereiro 2005
Março 2005
Abril 2005
Maio 2005
Agosto 2005
Outubro 2005
Janeiro 2006
Maio 2006
Agosto 2006
Janeiro 2007
Dezembro 2007
Fevereiro 2009

Assinar Postagens [Atom]